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Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Jetlag Emocional


Encostou a cabeça à janela.
Lá em baixo as luzes aglutinavam-se em poças douradas luminosas. O vidro embaçou e ela fez o que havia visto há uns tempos na cena de um filme, rabiscou o nome dele, mas rapidamente o apagou. Precisava abstrair-se daquilo naquele momento.
Tentou distrair-se na música. Tinham acabado de lhe dar uns phones, que permitiam aos passageiros escutar aquilo que mais lhes agradava nas várias rádios disponíveis no avião. Seguiu de canal em canal à procura de algo que a animasse, devido às circunstâncias daquela viagem, mas logo desistiu. Não foi por falta de tentativas, mas cada música trazia-lhe a presença dele, que persistia também pelo cheiro que ficara na sua roupa daquele abraço de despedida no aeroporto.
“Ainda não acredito que isto está a acontecer.”
Ela não sentia saudades. Sentia uma mágoa que não tinha como extravasar e ficava alojada na garganta, como um pedaço guloso de pão mal mastigado que só desceria com a ajuda de um líquido. Mas o liquido que ela precisava não era um líquido qualquer. Não era sequer um líquido.
Não tinha fome. Não comeu a comida que lhe deram já esfriada. Fria era como se sentia. Inerte. Para piorar a situação, no canto do minúsculo tabuleiro para sobremesa tinham-lhe reservado um “serenata de amor”. Era tudo que ela precisava! Um chocolate. Qualquer mulher reconheceria aquele momento: estado depressivo, sentada no sofá em frente à TV, a comer chocolates e beber refrigerante ou vinho, se houvesse no frigorífico.
Recusou-se a passar por aquela situação. Já bastava a sua dor emocional, não precisava de uma auto-puniçao, depois daquele prazer momentâneo.
Restava-lhe agora dormir e esquecer onde estava, na ânsia de acordar e tudo não ter passado de um sonho. Ou melhor, de um pesadelo. Tomou um calmante e esperou o efeito do mesmo surtir. Teve tempo de ir ao WC, tentar ler mais umas páginas do livro que ainda agora começara, dar uma leitura na transversal pela revista da companhia e pensar na fraca qualidade daquelas matérias. O sono tardou mas chegou.
Acordou já o sol brilhava em paralelo com o avião. No seu relógio eram 8 da manha, mas a hora local indicava que já era meio-dia. Confusão de fusos horários, pensou. Sentiu fome.
Pouco mais passou do que uma hora e estava de regresso a terra, mas ainda não à sua. Oito horas era o tempo que ia ter para tentar se convencer de que tudo aquilo acontecera mesmo, que o tempo só havia passado sem que tivesse percebido a tempo.
Depois de almoçar, sentou-se perto da janela a ver os aviões descolarem e aterrarem. Essa foi mais uma tentativa de se abstrair do emaranhado de sentimentos que a assombrava, dos medos que previa encontrar no destino e dos sonhos que havia deixado para trás. Olhando para ela, percebe-se claramente a falta de consciência do que a rodeia.
Nas horas seguintes perdeu-se pelos infinitos free shops, cheirou perfumes que lhe traziam à memória lembranças recentes, chorou sobre as fotografias que passavam no telemóvel, mandou mensagens desconexas… Cada vez mais começava a ter noção do seu desequilíbrio.
Chegou 40 minutos antes do início do embarque e sentou-se sobre as malas. Esperou. Esperou. Esperou. Começaram a chamada e foi das primeiras a entrar. Durante as 2h30 de voo que faltavam não se lembra de ter adormecido, mas a prova disso estava na dor de pescoço com que acordou.
Não reconheceu a paisagem aérea que já tantas vezes sobrevoara e isso apavorou-a na hora do desembarque. A ânsia de acordar e perceber o que se passava traduziu-se em mais um ataque de pânico, que a levou a tomar um calmante, mesmo sem água. O primeiro telefonema que recebeu, salvaguardou-lhe que não se preocupasse com a água. Depois ficou sem bateria no telemóvel e permaneceu mais de 30 minutos à espera da sua mala com excesso de peso. Antes de sair ainda lhe revistaram as malas desorganizadas.
Quando saiu teve a sensação de que tudo não passara de um sonho. Assustou-se e quis fugir dali.
Na verdade, fugiu mesmo, apenas se despediu dos amigos que tinham comparecido para a recepção e que, entre gritos, risadas e cartazes, amenizaram a tensão daquele reencontro.

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